Sábado, Agosto 30, 2008

E o dia é de noite

Um hálito de presença invade-me a alma desatenta. Confesso, com alguma alegria, que não tenho vontade de saber as horas. Mais perto do outro, o meu tempo jaz às portas de uma baía às escuras. A água nua, imperfeita, horizontal ao vazio, faz passatempos com o impossível. Imagem a imagem, forma-me o reflexo de mim e não me revejo. Dorme tudo como se num universo paralelo é que existisse o mundo, como se o vento aqui não fosse vento e como se o arquear das árvores fosse mecânico. Engana-se de novo a alma que trouxe até mim a realidade, este dia pouco, esta melancolia brava.
Depois de tudo, eu fico-me só, porque não sei quem sou.
O sentido de tudo é mendigo nas ruas dos meus sonhos.
E o dia é de noite sem me perguntar porquê.

Domingo, Agosto 10, 2008

Dia que se acaba

Aqueles que em mim se acreditaram,
Não sabem o que fui, nem o que sou.
Não sabem que não sou o que esperaram,
Nem sabem que fui o que já amou.

Noites nas minhas noites se pousaram.
De entre elas qual foi que se matou?
Quantas foram aquelas que se gastaram,
E qual delas foi a que não se aguentou...

Sinto este dia louco, este cansaço,
Este rodear vago, como um abraço,
E nele me deixo ir nesta ansiedade.

Quem me dera que dure eternamente...
Esta procura por quem nunca foi gente...
E quem me dera que o dia não se acabe.

André Lopes