Sexta-feira, Maio 25, 2007

ferve a noite


Sinto um frio que me entra na alma e me preenche o corpo de ódio. Nunca tive saudades minhas, nem demasiadas ilusões, sempre fui dono de uma inquietante frieza, mas este frio… este frio que me nega o corpo e me faz chorar de desgosto, este soturno e estranho faro que me gela os ossos até roçar o coração e me deixa uma marca de sossego...
Nunca tive mestre nem professor, nunca ninguém se mostrou das sombras em mim, olhei, vi e perdi, uma excepcional batalha que nunca existiu, teriam força suficiente para me fazer juntar na sua busca e jamais teria permanecido aqui.
Farsante.
Cobarde.
De rastos, deitado sobre a cama onde nunca dormi e de onde nunca me levantei. Quantas mais, quantas mais angustias no meu vão crescer, até tocar a leveza da piedade. Conheço o meu rumo de cor, mas guardo-o bem longe.
A noite ferve...a minha boca esboça um cansaço de viver.

Segunda-feira, Maio 21, 2007

n ser eu

...mais tarde, sim, mais tarde, até ao bater das horas da ermida, horas mortas, envoltas em sedas monótonas, acamadas ao descoberto da noite.
...mais tarde sim...até que me canse o viver do respirar que arrasto, até ao beirar das minhas filosofias, ao alto da minha boca desejosa de suor...

Ah! Não ser eu mais que tudo, até sair de mim, uma impossibilidade de me escrever...

Quinta-feira, Maio 17, 2007


Esconder o mundo na algibeira de alguém e guardar o mapa que me leva a ele, para que não possa, junto dos dias de chuva, procurar o tédio que se fecha em cada uma das gotas de orvalho. Poderá, quiçá, parecer a poucos que escrevo o que sinto. Sim. Realmente não escrevo o que sinto, nem escrevo em língua nenhuma. Escrevo eu mesmo. Escrevo-me enrolando as palavras para que fiquem menos perceptíveis a olhos nus, declaro o meu eu sem nenhum tipo de pudor, sem fama e sem angústia, apenas o resto dos motivos que ainda existem em mim. E eu chego a ter uma qualquer sensação de alma indiferente, igual a tantas outras que já tive, é nestas alturas, que me sinto intensamente numa qualquer página. O absurdo das minhas frases começa na origem da sua existência. Escrever-me? Quem me deseja? Se da minha nefasta existência apenas se sabe a necessidade de existir.

Isto, porém, é o limiar da loucura.

Meu corpo treme a alma cansada de lutar…

"I feel that I'm loosing it all
There's nothing left to live for
I'm ending it all in my dreams
It always seems so easy in my sleep
I'm all alone

Waiting for darkness
I wish the sun would slip away"

Alonely - Nightingale

Quarta-feira, Maio 16, 2007


" Se pressenti qualquer coisa de inusitado, não o consigo recordar agora; talvez a mirada cortante de uma mulher à beira da estrada, o gesto tímido de uma criança a cruzar os dedos numa figa, uma encruzihada. Deitei as cartas, como sempre fazia em qualquer lugar novo para nós, mas só tirei um inofensivo Louco, um Seis de Paus e um Dois de Copas. Se havia ali um aviso, não o vi."
Na Corda Bamba - Joanne Harris

Eu, longe dos meus caprichos, vejo o mundo da forma como ele me pede para ser visto. São raras as situações em que o sonho sem a mesma realidade com que ele me absorve diariamente, são vagamente estranhas as oportunidades em que me devolve as suspensões diárias de um cansaço imaginado e criado para mim. Não fossem as chuvas cada vez mais frequentes e digo que estaria mesmo a viver a felicidade e a alegria doentia. Não poderei nunca, deixar que o Mundo me entretanha com as suas falsas promessas, nem de dia, nem que apague, em mim, o poder absoluto para controlar o meu destino. Nunca senti tanta falta de empatia pelo que desconheço, nem tão pouca afeição pela desordem dos meus papeis, seriam os meus dias tão mais fáceis se nada me fosse querido e apaixonado.
As horas, tal passas amargas de um cigarro, vão sendo consumidas num passar de gerações, o sol, gasto pelos séculos vegetais de aparições vai sendo apagado diante dos nossos corpos.
Pensar?
Ainda mais perguntas...ainda mais respostas mutiladas por uma qualquer pessoa que passou pelo passeio...

Domingo, Maio 06, 2007

escolhas


Escolha eu o dia que escolher, qualquer um deles será um bom dia para me interrogar. As perguntas fracas, doentes. As respostas sujas, dementes.

Escolha eu o dia que escolher, qualquer um deles será um dia morto.

A noite fria, vagabunda.

A noite sendo a verdadeira essência, sendo noite…

Escolha eu a vida que escolher, qualquer uma delas, não será nunca o suficiente.

Doença, doente, morte.