Sexta-feira, Março 30, 2007

Preso


Oiço vozes ao longo do corredor. A porta do meu quarto está fechada. Está sempre fechada. Abre-se apenas para que um rasto de mim se desvaneça em direcção ao seu exterior. Desconheço as mesmas, já não me são familiares, nem sequer o seu timbre me provoca qualquer sorriso. A minha porta continua fechada.
Tenho medo.
Estou quase a atingir o final do mês e as dúvidas amontoam-se nas minhas costas. Uma após outra e eu caí. O peso é demasiado para que me levante. Oiço vozes, lá fora, estranhas, perdidas. Dou uma volta com a chave...e mais uma.
Tapo-me com todos os cobertores e já são duas da tarde. A minha vida não preenche os requisitos da felicidade. Está escuro. Continuo a ouvir vozes.

Sexta-feira, Março 23, 2007

Dia 22



Parabéns a nós. Somos dois. Mais um dia 22 igual a tantos outros, com a particularidade de ser diferente de tantos. Feliz dia minha vida. Feliz contentamento de mais um dia de Lisboa, mais um dia da nossa vida.

Somos dois.

Obrigado pela esperança e pela virtude que crias em mim. A tua boca na minha, as tuas mãos, palma com palma agarradas nas minhas, os teus passos doces a pisar os meus e os meus, amor, a sustentar os teus, os teus braços entendidos esperando alcançar os meus. Feliz dia 22, feliz dia 22 atrasado.
Não te esqueci, lembrei-te em cada minuto, cheguei tarde no nosso dia, desculpa, feliz dia, atrasado.

Quinta-feira, Março 22, 2007

Promessa


Tinhas-me prometido que voltavas.
não sei em que estrada te encontras, nem que caminho trilhas durante a noite, sei que não estás comigo, aqui.
Já não tenho os teus quadros na parede, nem a ansiedade de um menino. Os meus sonhos são meus, meus. Os sonhos são a tua fonte de existência. A minha vontade de te viver. Os sonhos.
Talvez venhas esta noite, sem que eu consiga dar conta, e te deites na minha cama, talvez chegues devagarinho, suave, com a pele a arder de desejo, e os braços abertos para mim. Quem me dera. Quem me dera que chegues quando as estrelas brilharem.
Quem me dera que eu exista.

Domingo, Março 18, 2007

Sobrevivo

Sobrevivo, ainda.
A sensação mais estranha do mundo, a sobrevivência A respiração ofegante de uma qualquer visão citadina.
O olhar parado dos taxistas pelo soar das primeiras horas da madrugada.

A hora que eu partilho com o mundo, será, quiçá, a mais sagrada de todas. A meia-noite. A calma e a paz de Lisboa entranhadas na minha pele, o ruir das buzinas nas entrelinhas das estradas e o calar de mais um dia agitado. Será, talvez, a sensação de alívio que chega, o sub-refugio de tudo o que esqueço. Será, porém, também, a vontade de chegar ao fim de mais um dia. De mais um dia calado.
A cidade que conheço de cor em dias de sol, é, porque o quer, misteriosa nestas horas. Não tem o mesmo encanto. Não tem espelhado nas paredes as palavras de ordem que conheço tão bem.

Balanço, inquietantemente, entre dois mundos. Gosto desta sensação.


"Não acredito que tenhas esquecido as manhãs em que saías e deixavas a avó perder a esperança de qualquer carinho, nem os serões em que chegavas tarde, com o cheiro da taberna entranhado nas roupas e na pele, nem as semanas seguidas em que apenas saías de manhã e chegavas à noite, sem mais nada. As conversas durante e depois do jantar a serem cada vez mais curtas, até serem apenas a sopa sorvida da colher e sombras na cozinha: até serem nada. E se a sopa estivesse demasiado quente, se estivesse a chover na rua, se estivesses contrariado, podias atirar o prato ao chão, podias empurrar a avó, derrubá-la, fazê-la chorar e fingir que não ouvias, que não te incomodava, que a tristeza dela não tinha nenhum valor."

“Cemitério de pianos” José Luís Peixoto – Bertrand Editora.

Acabei de ler a última página numa das minhas muitas e intermináveis viagens de metro por Lisboa. A minha lágrima caiu sobre o chão sujo sem que ninguém desse por nada. Não poderia ser mais perfeito.