Sobrevivo, ainda.
A sensação mais estranha do mundo, a sobrevivência A respiração ofegante de uma qualquer visão citadina.
O olhar parado dos taxistas pelo soar das primeiras horas da madrugada.
A hora que eu partilho com o mundo, será, quiçá, a mais sagrada de todas. A meia-noite. A calma e a paz de Lisboa entranhadas na minha pele, o ruir das buzinas nas entrelinhas das estradas e o calar de mais um dia agitado. Será, talvez, a sensação de alívio que chega, o sub-refugio de tudo o que esqueço. Será, porém, também, a vontade de chegar ao fim de mais um dia. De mais um dia calado.
A cidade que conheço de cor em dias de sol, é, porque o quer, misteriosa nestas horas. Não tem o mesmo encanto. Não tem espelhado nas paredes as palavras de ordem que conheço tão bem.
Balanço, inquietantemente, entre dois mundos. Gosto desta sensação.
"Não acredito que tenhas esquecido as manhãs em que saías e deixavas a avó perder a esperança de qualquer carinho, nem os serões em que chegavas tarde, com o cheiro da taberna entranhado nas roupas e na pele, nem as semanas seguidas em que apenas saías de manhã e chegavas à noite, sem mais nada. As conversas durante e depois do jantar a serem cada vez mais curtas, até serem apenas a sopa sorvida da colher e sombras na cozinha: até serem nada. E se a sopa estivesse demasiado quente, se estivesse a chover na rua, se estivesses contrariado, podias atirar o prato ao chão, podias empurrar a avó, derrubá-la, fazê-la chorar e fingir que não ouvias, que não te incomodava, que a tristeza dela não tinha nenhum valor."
“Cemitério de pianos” José Luís Peixoto – Bertrand Editora.
Acabei de ler a última página numa das minhas muitas e intermináveis viagens de metro por Lisboa. A minha lágrima caiu sobre o chão sujo sem que ninguém desse por nada. Não poderia ser mais perfeito.
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